31/03/2008

Sem Luz...


Já não sinto amor, não sinto o cheiro, o calor nem tão pouco o arrepio que nos aperta o peito. Já não sou amada, já não toco como tocava, perdi o tom das frases melódicas que enchem a alma de quem ama.
Já não amo, já não sei amar, limei todas as arestas da alma, fiquei polida, fria e de coração vazio…
Ajustei as ligas pretas, verifiquei o tamanho da saia, não sei porque o faço, não sei porque me pinto…
Pareço uma bruxa escondida por detrás do batom, bem por baixo desta base que me esconde a cara, mas que não me tapa a alma. Nada tapa a alma, as vezes tento não pensar, vou agindo ao sabor do tempo e do dinheiro que nos move.

Nem sempre é fácil… Nunca é fácil olhar o espelho e ver uma puta pronta para seguir, seguir a estrada, esperando que alguém nos pague por um pedaço de carne, um pedaço de prazer fingido…
Tentei afugentar a dor de alma com a ajuda de um cigarro, mais um cigarro, mais um pedaço de dor que engulo…
A noite estava fria, a avenida vazia, as “vizinhas” de ofício olhavam-me desconfiadas, talvez invejando algum traço meu, talvez apenas vendo que sou mais uma, mais uma alma perdida, sem respeito por si mesma.


Parou o Mercedes bem em frente aos meus olhos, parou-me também o coração, debrucei-me sobre o carro com o gesto clássico de uma profissional do ramo. Um velho mal amanhado, um cheiro a álcool que não se podia e a frase do costume:

-Então fofa quanto é que é?

A parte difícil nunca é a negociação, difícil é levar com noventa quilos de banha provenientes de um porco insaciável, que nos arranha o corpo com a barba mal feita, difícil é o gemido falso, difícil é ouvir barbaridades sujas de quem no fundo nos comprou, tal naco de carne no talho, tal mercadoria suína prontinha para amanhar…

Não sei quanto tempo passo no banho, nunca me sinto lavada, nem no corpo nem na alma, passo mais um pouco de sabonete, mais um pouco de shampo, mas por mais água que corra serei sempre a mesma, a mesma alma vendida, a mesma alma sem luz…

Memórias da Alma sem Luz


Tenta esquecer a percentagem de água que te compõe, apaga da alma o amontoado de pele e ossos que te estruturam. Guarda bem guardadas todas as memórias no recanto do bolso. Não penses, não chores, tenta afastar os medos. Não sussurres baixinho os segredos…
Viaja apenas com a tinta da alma e escreve… Descreve com mágoa ou carinho toda a composição lógica do ser, todas as dores, todos os males. Despeja agora os suspiros escondidos, as paixões mal revolvidas, a banalidade de uma viagem no parque.
Folha após folha, mágoa por mágoa, lágrima por lágrima, tenta transpor em papel a cor de tua alma…

Agora guarda, guarda em cada recanto de tua casa, em cada palha de teu ninho, guarda cada folha bem longe da alma, bem longe da vista, dia após dia, ano após ano….
Volta a pegar um dia, alguns anos depois, muitas memórias passadas, muita fome vivida, muita dor traída, volta a pegar em tuas memórias, em cada pedaço de alma estampada no papel.
Junta de novo todas as folhas, todas as tuas histórias e atira-as bem alto no ar, mil e uma memórias caídas do céu, sem tempo sem espaço e sem sentido, volta a pegar sem organizar, sem sequer olhar…
Lê de mente aberta, cada pedaço teu…
E descobre quem és, encontra a cor de tua alma, descobre quem realmente és…
Todos nós somos memórias, todos nós somos passado….

O ínicio da Demência


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